Há momentos em que fugir deixa de ser uma escolha e se torna a única maneira de continuar vivendo. Para Ali e Nermin, um casal sírio com três filhos, deixar para trás a própria casa, a profissão, os amigos e as raízes foi uma decisão dolorosa, mas necessária. Mais do que buscar segurança, eles queriam oferecer aos filhos algo que toda criança merece: a oportunidade de crescer em liberdade, sem medo, e de sonhar com um futuro sem limites.
Ali é médico, Nermin é professora. Na Síria, além das dificuldades impostas pela guerra e pela instabilidade, os dois pertenciam à minoria alauita, que sofreu perseguições e violência. Eles viram parentes e amigos perderem a vida e conviveram com o medo de que, a qualquer momento, a mesma tragédia pudesse atingir sua família. Quando permanecer deixou de ser seguro, entenderam que precisavam partir.
A primeira parada foi a Somália, onde Ali conseguiu trabalhar como médico e sustentar a família. Mas, apesar da oportunidade profissional, aquele não era o lugar onde imaginavam criar seus filhos. Eles buscavam mais do que um teto e uma fonte de renda: queriam construir uma vida em que as crianças pudessem crescer com tranquilidade, fazer planos e acreditar que o futuro lhes reservava possibilidades.
Foi por meio de um amigo sírio que já vivia no Brasil que surgiu a possibilidade de um novo começo. O Brasil passou a representar uma esperança: a chance de reconstruir a vida longe da perseguição e de encontrar um lugar onde a família pudesse, finalmente, criar raízes.
Mas recomeçar exigiu um sacrifício enorme.
Para tornar a mudança possível, Nermin precisou vir primeiro com os três filhos. Enquanto ela enfrentava o desconhecido em um país novo, Ali permaneceu na Somália, trabalhando para garantir o sustento da família. A distância era o preço temporário de um sonho compartilhado.
Imaginem a coragem necessária para chegar a um país onde tudo é diferente: a língua, os costumes, os caminhos, os desafios do cotidiano. Imaginem fazer isso com três crianças, carregando a responsabilidade de protegê-las e, ao mesmo tempo, encontrar forças para construir uma nova vida. Enquanto o coração permanecia dividido entre a esperança do futuro e a saudade de quem ficou para trás, Nermin precisava seguir em frente.
Foi nesse caminho que ela conheceu a AIRE.
Acolhemos Nermin e sua família e caminhamos ao seu lado em etapas fundamentais desse recomeço. Ajudamos com a documentação, oferecemos apoio para que ela pudesse aprender português e se adaptar à nova realidade. Aos poucos, aquele país desconhecido começou a se tornar um lugar possível. E Nermin, com sua formação e experiência como professora, conseguiu um trabalho como professora de inglês.
Cada conquista representava muito mais do que uma etapa burocrática ou uma oportunidade profissional. Era um passo em direção à autonomia, à segurança e à vida que ela e Ali desejavam construir para os filhos.
Ainda faltava, porém, a parte mais importante: reunir a família.
Foram meses de espera, saudade e planos adiados. Meses em que Nermin precisou ser mãe, cuidadora e desbravadora de uma nova vida, enquanto Ali continuava trabalhando do outro lado do mundo, sustentando a esperança de que aquela separação teria um fim.
Em setembro de 2026, aproximadamente um ano depois da chegada de Nermin ao Brasil, esse dia finalmente chegou. Ali conseguiu vir para o país, e a família pôde voltar a estar junta.
Depois de tantas despedidas, tantos quilômetros e tantas incertezas, eles puderam compartilhar novamente o cotidiano. Estar à mesa, acompanhar o crescimento dos filhos, conversar ao fim do dia e fazer planos juntos: gestos simples para tantas famílias, mas que, para quem precisou fugir e viver separado para sobreviver, carregam um significado imenso.
A história de Ali e Nermin nos lembra que o refúgio não termina quando uma pessoa cruza uma fronteira. Recomeçar significa reconstruir muito mais do que uma casa. Significa recuperar a segurança, reencontrar a dignidade, exercer uma profissão, aprender uma nova língua e voltar a acreditar que é possível planejar o amanhã. Significa, também, poder abraçar quem se ama sem saber quando será a próxima despedida.
Na AIRE, acreditamos que acolher é oferecer condições para que cada pessoa reconstrua sua própria história, com independência, dignidade e protagonismo. Não podemos apagar as perdas que essas famílias carregam, nem devolver os anos vividos sob o medo. Mas podemos ajudar a construir um presente no qual o passado não determine todos os caminhos do futuro.
Hoje, Ali e Nermin têm a oportunidade de continuar juntos a jornada que começaram com tanta coragem. Ainda há desafios pela frente, como acontece em todo recomeço. Mas agora podem enfrentá-los lado a lado, em um lugar onde voltaram a imaginar o futuro para si e para seus filhos.
Porque, às vezes, a maior conquista de uma família não é chegar a um novo país, conseguir um emprego ou aprender uma nova língua.
É simplesmente poder estar junta outra vez.
E ter, finalmente, a liberdade de sonhar.
